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O Poeta Tantino Cartaxo, neste final de semana grava programa Papo, Prosa e Poesia, com Ubiratan di Assis, para TV Diário do Sertão.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Recesso!


A equipe AC2B entra em recesso por tempo determinado. A qualquer momento poderá surgir alguma postagem, sem aquela velha e peculiar regularidade. Voltaremos no início do ano, com o mesmo carinho e a mesma compreensão da vida. 



Resposta do cientista Alfred Kastler a uma pergunta que lhe foi dirigida:"Que lição a vida lhe deu?" 


"Muitas. Mas acho que o que melhor aprendi foi a tolerar. Uma das grandes causas das guerras sociais e religiosas é a intolerância. Esta é a fonte de todos os males. É preciso que aceitemos nossos semelhantes como eles são, cada um na sua posição, cada um em seu caminho. O ex-presidente da América do Norte, John Kennedy, o homem que mais admirei, em 1962, eu o vi numa fala ao povo americano. Pedia aquilo que defendo: a tolerância. Apelava para o branco, pedindo que deixasse o racismo. Fiquei impressionado. Foi uma dessas pessoas que se vê, se ouve e não se esquece".

Equipe AC2B

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

O jornal "O Dia" me procurou esta semana pra ouvir uma cubana muito amiga minha, Teresa Sopeña, sobre a libertação dos três presos e o anúncio de reatamento das relações com os Estados Unidos.


Depois de consultar Teresa, enviei ao jornal trecho de um email que ela tinha me mandado. Como seu depoimento acabou não sendo publicado, eu o posto aqui. 
Ele dá bem a dimensão de como o povo cubano recebeu as notícias - em particular a da libertação dos três presos.
"Cid, nem tenho palavras para expressar tanta emoção e alegria. O encontro das famílias dos recém libertados com Raul foi comovente.
Do aeroporto foram direto para o cemitério, para depositar flores nos túmulos das mães de dois deles, que morreram enquanto estavam na prisão.
Foi impressionante.
As pessoas nas ruas estão tão felizes...
No início havia muita expectativa porque, quando anunciaram que Raul falaria em rede nacional, ao meio-dia, as pessoas pensaram que poderia ser algo relacionado com a saúde ou até a morte de Fidel.
Depois, pela internet, se soube que os três heróis já estavam em Cuba.
Quando Raul falou, relatando as negociações com Obama, você não pode imaginar a alegria em que todos ficaram.

É indescritível.

Estou chorando agora e chorei naquela hora. As pessoas foram para a rua, nos centros de trabalho todos se abraçavam, a confraternização era geral.
As pessoas abraçavam desconhecidos numa grande festa.

Acho que desde 1959, quando do triunfo da Revolução, não se via tanta alegria nas ruas.
É muito importante que esta conquista tenha sido obtida quando os dirigentes históricos da Revolução ainda estejam à frente da sociedade cubana.

Isso é um grande mérito e uma garantia que os princípios vão se manter. Vêm tempos difíceis, mas temos confiança em que podemos avançar e construir um país com uma sociedade mais justa e um desenvolvimento sustentável.
Juro que não acreditava que viveria o suficiente para ver a libertação dos heróis.
Imagina como estará Fidel!"

Cid Benjamin


Esse é também o desejo de quem faz o Almanaque AC2B

"Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos.




 Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas! Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimentos os povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo!"

Papa Francisco aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, em 28/10/2014.

sábado, 20 de dezembro de 2014

S/C

A AC2B congratula-se com a propositura do vereador Fuba e parabeniza a talentosa cajazeirense Edileide Vilaça.


Edileide Vilaça recebe título de cidadã pessoense


Ao lado do vereador Fuba, autor da propositura, Edileide Vilaça exibe título de cidadã de João Pessoa



Saudada com poesia, a apresentadora da rádio CBN João Pessoa Edileide Vilaça foi homenageada com o título de cidadã pessoense. A honraria foi entregue pelo autor da propositura, o vereador Eduardo Fuba (PT), na tarde de ontem, em solenidade na Câmara Municipal de João Pessoa.

Para Fuba, Edileide Vilaça desempenha importante participação não só no cenário jornalístico da capital, mas também no desenvolvimento de projetos que destacam a cultural local. Natural de Cajazeiras, ela mudou-se há 24 anos para João Pessoa. Desde 2012, ela integra a Rede Paraíba de Comunicação e atualmente é âncora do programa matinal CBN João Pessoa.

Nota AC2B - Associação de Cajazeirense e Cajazeiras em Brasilia- DF, congratula-se com a propositura do vereador Fuba e parabeniza a talentosa Cajazeirense, agora, também Pessoense, Edileide Vilaça.

A coluna de Reudesman Lopes: "O mestre Hermínio se foi, mas, entre todos nós que tivemos a felicidade de sua convivência à certeza que ele nos deixou um imenso legado de ensinamento que traduziu todos os seus 95 anos de vida, ética, honestidade, amor à família e respeito ao próximo."

O adeus ao mestre

Hermínio  com a família

Domingo, 14, fomos surpreendidos com a notícia vinda de João Pessoa até nós que dava conta do falecimento de Hermínio Felinto dos Santos, meu sogro, pai da minha digníssima Edinilza. Aos 95 anos de idade e já com o quadro de saúde extremamente debilitado a mais de 3 anos, ele veio a óbito. Homem de qualidades fantásticas, tem uma história de vida encantadora e por demais exemplar para quem a conheceu através da própria fala em contos que jamais se cansou em nos repassar. 

A primeira vez que o vi, me assustei, estava começando o namoro com Edinilza e naquela época, muitos pais não gostariam de ver a sua filha de mãos dadas com o namorado, pois bem, eu estava de mãos dadas e, quando demos fé, ele já estava em cima de nós, Edinilza tremia, eu também, entretanto, educadamente, ele passou por nós, deu uma olhada e foi embora. Essa eu jamais me esqueci. Para muitos, sargento, tenente Hermínio, para mim, mestre Hermínio, assim eu o chamava e o cumprimentava. Nasceu no município de Pombal e pertencia a uma família que vivia da agricultura, criança, logo entendeu que o caminho a trilhar seria os estudos, assim iniciou a sua breve jornada em uma escola lá mesmo onde morava, nos primeiros dias o professor observou que aquele menino seria um seu ajudante no ensino junto aos outros garotos da sala e foi. Rapaz, tomou a iniciativa de vir para João Pessoa e se integrar a Polícia Militar da Paraíba e assim o fez, incorporou-se na PM e fez desta o seu sacerdócio, como ele dizia, sentei praça. 

Soldado, cabo, sargento e tenente reformado, uma vida de extremada devoção à causa militar. No sertão, exerceu o cargo de delegado de Polícia em vários municípios a exemplo de Sousa, Triunfo, Antenor Navarro, Santa Helena, Cajazeiras, Aparecida, São Gonçalo e outras que aqui me falha a memória. O mestre Hermínio, apesar de não ter a oportunidade que deu aos filhos quanto aos seus estudos, foi um homem de uma inteligência rara e, seu presente favorito era um bom livro que após a sua leitura fazia questão de comentar para todos nós, e ou um quebra cabeças nunca inferior a 5 mil peças e com este, juntava ao seu entorno as suas netas para ajuda e entretenimento com elas. 

O mestre Hermínio se foi, mas, entre todos nós que tivemos a felicidade de sua convivência à certeza que ele nos deixou um imenso legado de ensinamento que traduziu todos os seus 95 anos de vida, ética, honestidade, amor à família e respeito ao próximo. A Deus os meus agradecimentos de participar dessa história da sua vida e de ser um membro desta família de pessoas que são exemplo.


Sousa contra


O presidente eleito da Federação Paraibana de Futebol já inicia o seu rumo à casa da bola provocando um rebuliço junto aos clubes profissionais do estado. Ele quer adiar o início do Campeonato Paraibano 2015 para o mês de fevereiro e assim recebe de alguns dirigentes um “não”, o presidente do Sousa Esporte Clube diz não aceitar tamanha imposição de Amadeu Rodrigues e foi o primeiro a se manifestar contrário, mas, pelo andar da carruagem a maioria deverá também se opor a alteração do calendário já aprovado pelo arbitral.


Ela voltou


A eleição de Amadeu para a presidência da Federação Paraibana de Futebol se deveu e em muito ao trabalho nos bastidores de Rosilene Gomes. Apedrejada por alguns daqueles que se opuseram ao jeito dela de mandar no futebol paraibano, a sua volta é uma contraprova de todos os que a rejeitaram. Agora “vão ter que a engolir”, e disso não me afasto um momento. Entendo que mesmo Amadeu dizendo que é ele o mandão da FPF, a mandona mesmo será Rosilene, mesmo porque a vitória dele foi sob o comando dela e isso ele jamais poderá negar.



BOLA DENTRO


Para o campeonato mirim e infanto juvenil realizado pela Secretaria de Esportes e Liga Cajazeirense de Desportos. Sem dúvida, um trabalho fantástico daqueles que vivem e respiram a base no nosso futebol. Para todos vai a NOTA 10!



BOLA FORA


Para o presidente da FPF Amadeu Rodrigues. Nem sentou na cadeira e já começa uma briga contra os clubes do futebol paraibano. Juízo caro presidente, se dividir não vamos a lugar algum. Por isso vai a NOTA 0!




Reudesman Lopes - reudesman@bol.com.br


Professor da UFCG de Educação Física, Comentarista Esportivo da Rádio Alto Piranhas e Colunista Esportivo do Jornal Gazeta do Alto Piranhas. Genro do inesquecível Ten. Herminio Felinto e Diretor de Base (Cajazeiras) da AC2B,

"Vanguarda européia e modernismo brasileiro"

Arquiteta brasileira vence concurso e projeta nova estação de metrô de ParisElizabeth de Portzamparc bateu nomes de gigantes e ganhou este mês o concurso para construir a nova estação de metrô Le Bourget, orçada em quase 90 milhões de euros

Agencia Estado

 (AECDP/Divulgação)
A arquiteta carioca Elizabeth de Portzamparc bateu nomes de gigantes como Norman Foster e outros e ganhou este mês o concurso para construir a nova estação de metrô Le Bourget, em Paris, orçada em 86 milhões de euros e com cerca de 7 mil metros quadrados de construção.

A estação de Le Bourget integra metrôs e trens e é parte do novo traçado urbano de Paris, denominado Grand Paris Express (GPE), que cria novos bairros e moderniza a rede de transportes existente - todo o atual sistema de metrô de Paris será renovado em 15 anos. Ao todo, serão 205 quilômetros de linhas e 17 novas estações até 2030 - as estações serão conectadas aos aeroportos e ao principal trem de grande velocidade (o TGV).

 (AECDP/Divulgação)

Le Borget abrigará um metrô automático. As outras estações já em construção são Villejuif, Noisy-Champs e Clichy-Montfermeil, cujo design foi assinado pelos arquietos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue, de Barcelona.

Le Bourget é sede do mais antigo aeroporto de Paris e também abriga o Musée de l’Air et de l’Espace, que conta a história da aviação pioneira francesa. "Por causa disso, a estação evoca uma sensação de voo, como se o edifício flutuasse. Também é um projeto de muita funcionalidade", disse Elizabeth.

O desenho de Elizabeth, sócia do escritório Elizabeth & Christian de Portzamparc (AECDP), mostra espaços em dois níveis, iluminados por uma fachada semi-transparente e de gigantesco pé alto, que atravessa toda a parede exterior. Elizabeth buscou uma noção de espaço "habitável", aconchegante, para a construção, usando materiais reciclados e cores quentes, além de uma "forte presença da natureza". As plataformas subterrâneas seguem o princípio do "total flex", no qual as estruturas interiores são flexíveis e permitem a mudança de uso do espaço no futuro.




A imprensa, valendo-se de uma 'delação premiada', declara a guerra dos sexos. Que precisão!

Homens param de escutar parceira após seis minutos, diz pesquisa


O Globo



No entanto, se é um amigo que eles estão ouvindo, a atenção pode durar até 15 minutos. 

" O melhor é ter ouvidos/e amar a natureza"

A canção e a escansão




José Miguel Wisnik - O Globo



Meu presente de Natal é '(o vento lá fora)', filme de Marcio Debellian


Não sou muito ligado em presentes, mas já tenho o meu presente de Natal, feito de ar e de sonhos, como explicarei mais adiante. Trata-se de “(o vento lá fora)”, filme de Marcio Debellian em que Cleonice Berardinelli e Maria Bethânia dizem poemas de Fernando Pessoa. As duas já tinham feito isso numa sessão da Flip em 2013, e se reuniram de novo para a filmagem, pouco tempo depois, num estúdio com pequeno público. Durante quase todo o tempo não vemos mais do que elas duas, uma mesa, folhas de papel, uma taça e um copo d’água. Maria Bethânia é Maria Bethânia, e isso é como se já soubéssemos. Cleonice Berardinelli é uma senhora de cintilantes quase cem anos, professora de literatura e especialista em Camões e Pessoa, até então só conhecida dos conhecedores.

Mas o que acontece, afinal, nessa hora e pouco de filme? Acontece aquilo que, segundo o próprio Pessoa, só se dá quando oferecemos em troca nossa simpatia, nossa intuição, nossa inteligência, nossa compreensão e a mão do anjo da guarda: a poesia. É com essa disposição total que as duas leitoras se entregam aos poemas, enquanto o olhar que as filma não o faz por menos, convidando-nos a participar dessa troca de dons com equivalente abertura de alma (se não quisermos, como diz o poeta, que os poemas sejam mortos para nós, e nós, mortos para os poemas).

Sem se afastar do seu propósito essencial, o roteiro é cheio de surpresas. Bethânia começa executando, com inesperada propriedade, a introdução de “Le Lac de Como” num sonoro piano Steinway de concerto. A peça era o maior hit entre alunas de conservatório nos anos 1960. Quando pensamos que a cantora vai enveredar por um deslocado devaneio instrumental, revela-se que o número é a deixa para que Cleonice diga o poema do heterônimo Alberto Caeiro: “Aquela senhora tem um piano / Que é agradável mas não é o correr dos rios / Nem o murmúrio que as árvores fazem... // Para que é preciso ter um piano? / O melhor é ter ouvidos / E amar a Natureza”.

Mudanças de foco, como essa, em que uma coisa se revela outra, em consonância com o pensamento de Pessoa, acontecem muitas vezes. Volta e meia elas fazem duetos em que alternam suas dicções, desvelando versos e reversos dos poemas, com as respectivas músicas da voz. Da gravação ao vivo salta-se de repente para o estúdio de áudio em que as intérpretes já estão ouvindo e avaliando o que gravaram, seja com comentários críticos e amorosos, com os rostos iluminados, com mãos e lábios em plena declamação muda. A certa altura, Cleonice dá uma aula de escansão do verso. Risadas, gargalhadas, notas de rodapé intercaladas pela especialista ao longo das leituras, correções de ritmo e repetições fazem com que a poesia, atiçada pelo jogo teatral e humorado entre as personagens da cantora e da professora, respire inteiramente livre e desengomada de convenções.

Mas aqui chego ao cerne do meu presente de Natal: a extraordinária transparência das leituras, livres também dos cacoetes expressivos com que atores costumam soterrar os poemas quando pensam realçar-lhes os conteúdos. Maria Bethânia foi se aproximando cada vez mais, ao longo da carreira, dessa depuração, o que torna ainda mais significativo e luminoso o seu encontro com Cleonice Berardinelli. Cleonice tem uma dicção cristalina, em que cada palavra esplende perfeita, com a intuição certeira da pausa em movimento, do milissegundo que fala, própria de quem sabe e sente que toda poesia se diz sobre um fundo imenso de silêncio. A intensidade das inflexões, o peso certo das sílabas e das palavras, o grão da voz, o timbre expressivo no essencial (como na extraordinária leitura do poema de “Mensagem” que fala do “mostrengo”), fazem com que a poesia surja inteligível e límpida como a água da fonte, ou como a da taça que vemos na tela, à sua frente.

Gaston Bachelard define a fala poética, no livro “O ar e os sonhos”, como “uma economia dirigida dos sopros, uma administração feliz do ar falante”. “Tais são”, diz ele, “as poesias que respiram bem”, e que atingem, com isso, a sua “verdade aérea” de palavra respirante. É só essa fluência íntima que permite ao silêncio e aos sentidos aflorar à tona da música das palavras, caso contrário eles submergem, por mais eloquente que seja o leitor. Antonio Cicero é outro que dispõe desse dom raro (como se pode ver, aliás, no DVD “Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade”, lançado pelo IMS).

O humano, diz Bachelard, “tem necessidade de provar e de cantar para si mesmo o seu próprio devir”, e “tal é a função voluntária da poesia”. O filme “(o vento lá fora)” vai conjugando de maneira sutil e comovente o devir em Pessoa (o tempo, a lembrança, o perpétuo ser outro) com a visão das faces que vão soprando o tempo e o vento, a infância e a maturidade, o fulgor de vida dessas duas divas. A última palavra de Cleonice é quase música. E a de Bethânia é música — a canção divina de Sueli Costa sobre uma ode de Ricardo Reis. Como diz outro poeta, a poesia é um chamado, e a música, uma chama.

Marcus Pereira, o ‘guardião’ da música popular e regional

Há 40 anos, o empresário consolidava gravadora precursora da independência fonográfica, que lançou o primeiro de Cartola


Helena Aragão - O Globo


Marcus Pereira: motor de uma gravadora que lançou discos de Cartola, Banda de Pífanos de Caruaru, Ernesto Nazareth e Paulo Vanzolini, entre outros
Foto: Arquivo O Globo / Arquivo (15-02-1979)
Marcus Pereira: motor de uma gravadora que lançou discos de Cartola, Banda de Pífanos de Caruaru, Ernesto Nazareth e Paulo Vanzolini, entre outros



RIO — Marcus Pereira não compunha, não tocava instrumentos e não cantava, mas foi um personagem importante para a música brasileira em uma de suas décadas mais frutíferas: a de 1970. Para muitos, era um empresário quixotesco que quis transformar a produção musical regional brasileira em sucesso de mercado e que, com a mesma disposição, atacava as grandes gravadoras e os hits de televisão. Na lembrança dos amigos, sobressai a imagem de um sujeito de coração grande, capaz de empregar gente ameaçada pelo regime militar e “adotar” artistas que considerava talentosos. Todas essas versões se misturam numa personalidade heterogênea, motor de uma empresa que lançou alguns dos mais interessantes discos brasileiros entre 1974 e 1981. De Cartola à Banda de Pífanos de Caruaru, de Ernesto Nazareth (pelas mãos do pianista Arthur Moreira Lima) a Paulo Vanzolini, do Quinteto Armorial a Elomar, a Discos Marcus Pereira abriu espaço para compositores e intérpretes que transbordavam em criatividade, mas encontravam pouco espaço nos escaninhos das majors.

Advogado de formação, Marcus migrou logo cedo para a área de publicidade e abriu sua própria agência na década de 1960. Foi lá que começou a flertar com a produção musical: passou a fazer discos para dar como brinde aos clientes. Mais tarde, em 1973, apostou todas as fichas em uma gravadora independente. Aquele ano foi para arrumar a casa, e apenas cinco discos foram lançados comercialmente (todos feitos como brindes nos anos anteriores: os quatro volumes da coleção “Música popular do Nordeste” e “Brasil, flauta, cavaquinho e violão”). Em 1974, ela apareceu de fato para o mundo, lançando mais de 20 discos em 12 meses. A Discos Marcus Pereira não levava o nome do dono à toa: a empresa vivia, de fato, em função de seus humores e sonhos.

Sonhos que deram origem a discos pioneiros. A robusta coleção “Música Popular do Brasil”, que começou pelo Nordeste e depois teve mais 12 discos destinados às outras regiões, é um exemplo. A aposta em Cartola é outro, mas guarda um detalhe curioso: relutante no primeiro momento, o empresário acabou convencido por seu sócio Aluizio Falcão e pelo produtor musical Pelão a fazer o disco, que acabou sendo saudado como um dos melhores de 1974. Com cerca de 140 lançamentos em nove anos, o catálogo impressiona em quantidade e variedade. E, para defendê-lo em suas convicções culturais e empresariais, Marcus se armou com tudo que podia, lutando contra um mercado já dominado e elegendo inimigos complicados.

Com convicções fomentadas por movimentos da época, como o Centro Popular de Cultura (CPC), por polêmicas como as da MPB contra as guitarras elétricas e por discussões folcloristas, ele ficou ainda mais determinado a se dedicar apenas ao mercado fonográfico após uma viagem a Recife, em 1963, quando conheceu o frevo de perto. Para Marcus, a “legítima” música brasileira devia fazer parte dos números grandiosos daquela indústria.

Enquanto isso, o trabalho com publicidade o desinteressava cada vez mais. No livro sobre O Jogral, bar “de resistência cultural” que frequentava em São Paulo, escreveu: “É difícil gostar de ser cúmplice de interesses que vivem de estimular, ao delírio, o consumo numa sociedade onde apenas uma minoria tem condições de consumir”.

Quando a coleção do Nordeste ganhou os prêmios Noel Rosa (da crítica paulista) e Estácio de Sá (do Museu da Imagem e do Som carioca), ele teve certeza de que a mudança de rumos era acertada. Anos mais tarde, no lançamento da coleção Centro-Oeste/Sudeste, escreveu no encarte: “Essa repercussão, na verdade, deve-se à beleza e comunicatividade de uma riqueza enorme que estava enterrada, neste país de tantas riquezas enterradas, e da qual nós colhemos pequena amostra, que é a cultura de nosso povo”. Os discos da coleção “Música Popular do Brasil” alternavam gravações documentais com as de artistas consagrados, como Elis Regina (Sul) e Martinho da Vila (Sudeste/Centro-Oeste). Este último, aliás, deixou o exército para se dedicar apenas ao samba graças ao estímulo de Pereira.

Ao apostar todas as fichas em discos “de conceito”, sem ter um elenco fixo ou coletâneas de sucesso, Marcus Pereira tentou criar um nicho de mercado, mas logo viu que não seria fácil. Ao longo dos anos seguintes, começou a ter problemas de distribuição e nas parcerias com gravadoras de maior porte para fabricação dos vinis. Seus esforços, em geral louvados pela imprensa, muitas vezes eram também questionados em relação a práticas paternalistas — e ele não se furtava em entrar em discussões por meio dos jornais. Aos poucos, as dívidas foram aumentando e saindo do controle. Além disso, Marcus enfrentava problemas pessoais. Em 1981, depois de voltar de uma viagem de férias, deu fim à vida com um tiro.

Em 1982, a Discos Marcus Pereira encerrou suas atividades. O catálogo foi absorvido pela Copacabana, empresa que também não resistiria muito tempo, passando o material em seguida para a ABW, que relançou “Música Popular do Brasil” (em 1994), entre outros, em CD (tiragens logo esgotadas). Hoje o acervo pertence à EMI, que por sua vez foi comprada por um consórcio liderado pela Sony.

A gravadora foi uma das precursoras na busca da “independência” fonográfica no Brasil — ainda que esse termo ainda não fosse usado. Nos anos 1980, os mercados internacionais começam a atentar mais para as músicas locais. O termo world music, criado no fim da década, passou a reunir todo tipo de canção folclórica ou étnica. Quatro décadas depois do início da aventura de Pereira, se o que ecoa de seu discurso pode soar um tanto datado para alguns, o impacto dos discos que lançou segue reverberando nos ouvidos das novas gerações.

"Meros devaneios tolos a me torturar"

SONHOS NASCEM, SE CONCRETIZAM OU... MORREM.




Quando pensamos ter visto tudo nesse mundo, a vida nos surpreende. Vamos morrer e não temos visto nada, ou quase nada, mesmo que acredite que o impossível é possível e basta acreditar.

Sei, não! Mas acreditem, o imponderável aconteceu. Um espetáculo “surreal”.

Pasmem, o PSDB requereu ao TSE, a diplomação de Aécio como Presidente da República, momentos antes da diplomação de Dilma. Permitiram Aécio e seus pares que pairasse sob suas cabeças o fracasso?

A campanha e a Eleição que já vão longas são coisas do passado e com elas a sua derrota e, ainda assim não faz outra coisa senão dar vazão a um ressentimento doentio, de dedo em riste, como sempre faz, para quem lhe venceu. Um dia pede ao TSE Recontagem de Votos, no outro acusa o governo de Crime de Responsabilidade por não cumprimento de meta fiscal e defende o impeachment de Dilma. No mesmo viés golpista, pede a reprovação das contas da presidenta e, acusa o PT de ser uma Organização Criminosa.

É difícil entender, como pode uma pessoa ser arrogante, mesmo sabendo-se derrotada. E Aécio é.

Pois bem. A vida vem com sua dose razoável de frustração e é precioso não ter “arrogância no sucesso para não ter amargura na derrota”.

O Papa Francisco, que cada dia surpreende a todos, prega uma palavra que o mundo político no Brasil não entende: a prática do diálogo. Para se ter dignidade na política, é preciso escutar e ter uma postura horizontal aberta ao diálogo.

Sem falar que o poeta diz que “a vida vem em ondas”. Há forças maiores do que as nossas e coisas que não somos capazes de compreender.

A radicalização de Aécio poderia nem ser vista como um obstáculo, desde que viesse acompanhada de apoio da cúpula do seu partido, já que o da rua inexiste. Acreditamos que ele deixou-se empolgar pelo discurso do ex-presidente Encardoso.

Embora a oposição tenha saído fortalecida do resultado eleitoral, esse comportamento agressivo de Aécio, que se espera seja uma forma de mostrar serviço e não perder espaço no partido, já que outras lideranças tucanas irão reclamar para si, disputar a Presidência da República em 2018, todavia, essa postura, poderá jogar por terra esse crescimento.

É preciso, portanto, que alguém avise para Aécio,   que ele tenha em conta, que a Eleição acabou.

O Brasil já tem presidente para os próximos quatro anos. Já foi até diplomada. Ainda assim, ele ainda não acreditou e se recusa enxergar. Digam todos que ele foi derrotado por 54.501.118 milhões votos de brasileiros, petistas e não petistas, que não se consideram integrantes de uma organização criminosa.

Como disse John Lennon, quando do fim dos Beatles: The dream is over... O SONHO ACABOU! E assim é a vida sonhos nascem, se concretizam ou... Morrem.

Portanto, o exercício natural do jus sperniandi, não poderá ser exercido. “Não haverá terceiro turno na Justiça”, assegura o TSE.

Nesta, não adianta sonhar! Sonhe outro sonho!

JOHN CARTAXO

Confesso a vocês, já estava ficando chato ser campeão tão somente no futebol. Trocamos o gramado pelas águas e lavamos a égua. Mesmo com a falta d'água na principal capital do país, o brasileiro continua mergulhando fundo.

É campeão! Medina conquista título inédito do surfe mundial para o Brasil


" é apenas um retrato na parede, mas como dói" (2).

MULHERES NATURAIS

As irmãs Cajazeiras (O Bem Amado)

Ontem escrevi sobre os homens naturais de Cajazeiras que habitaram minha admiração, minhas impressões, meu entusiasmo de quando eu era criança/adolescente na Cajazeiras dos anos 60/70. Hoje faço o mesmo em relação às mulheres.

Muito ouvido em salas de aulas do primário e daí por diante, e principalmente quando se aproxima do dia da cidade, como precursora, batalhadora, e figura histórica, começo por Mãe Aninha, a matriarca da cidade. A pessoa que mais ouvi falar dela foi o professor Antonio José de Souza. Tinha ele uma relação visceral com a história de Cajazeiras e nunca a esquecia de citá-la; Miriam Cavalcante, professora de português, me admirava por que foi uma das primeiras mulheres que vi dirigir automóvel, e com desenvoltura. Sabia muito português, tinha clareza didática e era rígida na cobrança de nossos deveres. Era esbelta, trazia seriedade no rosto bonito, e hoje percebo que sua face parecia um pouco com a de Clarice Lispector quando jovem e um misto de inteligência e de se expressar de Simone de Beauvoir, mesmo não sabendo como a companheira de Sartre se expressava. Coisas de imaginação adolescente; outra mulher destacada foi a saudosa professora de português que marcou gerações, Nazaré Lopes. De uma simplicidade, paciência e profissionalismo que rendia a todos. Lembro-me que seu birô, assim que terminava a aula, ficava rodeado pelos alunos como se tivesse dando aulas particulares naquele instante. O primeiro livro de Machado de Assis que li foi indicação dela: Esaú e Jacó. Amei, e foi daí que me abriu as portas para Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Bras Cubas e outras obras do criador da Academia Brasileira de Letras; Parece que as mulheres carregam no sangue a marca da educação, pois outra que ilustrou gerações de jovens cajazeirenses foi a professora Carmelita Gonçalves. Não tive o privilégio de estudar com ela, mas tinha admiração por ela, pois era unanimidade como modelo de educadora. Impossível em levantamento histórico educacional de Cajazeiras não constar seu nome; Ica Pires é o nome dela. Se fazer teatro era difícil, inda mais numa cidade do interior, imagina uma mulher. Mas dona Ica foi além e se tornou ícone na história da dramaturgia cajazeirense. Hoje sei muitas histórias interessantes sobre ela narradas nada mais nada menos por sua filha, Jeanne Pires, minha amiga constante de copo e de AC2B; Cajazeiras ter uma miss paraibana, aí foi demais, e o nome dela é Marta. Marta Rocha. Corpo escultural, deixava-nos, adolescentes, boquiabertos. Quando a víamos caminhando pelas calçadas, ou melhor, desfilando, provocava calor em nossas almas e rostos espinhentos. Queríamos ser seus alunos de datilografia na Escola Lica Dantas, mas não havia vagas para tanto rapazolas interessados em ter agilidade nos dedos em 180 toques por minuto. Mesmo conseguindo vaga, estaríamos voltados mais para interesse visual do que digital; Pela fantasia, pela mística, pela curiosidade passada pelos adultos em histórias e estórias, destaco Lilia, uma prostituta que deu muito amor e que era amada por todos os homens de Cajazeiras. Pena é a cidade interiorana que não tenha a fábula de uma prostituta de renome para ser cantada e decantada em alegorias mil, inflamando os falsos egos machistas; Cajazeiras tinha uma cantora lírica que chamava a atenção pela sua voz atípica, e, por desinformação, muitos não entendia aquele estilo musical. Era Dona Eunice, residente na minha rua, a Pedro Américo, e juntamente com seu esposo Moacir, Tebejinho, Rubens Farias e outros, formavam um grupo autentico de serestas, e lá, também, ela soltava a voz, ecoando por toda rua. Era muito bonito;

Sei que esqueci outras mulheres, mas deixo que cada cajazeirense faça sua lista e rememore a grandeza da mulher cajazeirense. A propósito: não citei o nome de minha mãe porque ela é hors-concours.

S/C

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

É bom ficar atento!

Voltei a acreditar em Papai Noel

A/C Papai Noel


Endereço: Pólo Norte


RICARDO CHAPOLA - Estadão



natal

Querido Papai Noel,

Beleza? Faz um tempo que a gente não se fala. Devem ter sido uns 20 Natais pelas minhas contas. Não mudei muito e suponho que o senhor também não. Talvez tenha ganhado uns quilinhos tanto quanto eu, mas relaxa: quando eu deixei de acreditar no senhor ganhei um Total Shape do meu pai que resolveu minha vida em questão de uma, duas semanas.

O senhor deve estar se perguntando o motivo da carta depois de tantos anos de sumiço. Vou jogar a real: não acreditava mais em você. De repente passei a desconfiar dos velhinhos rechonchudos vestidos de vermelho nas portas dos shoppings, distribuindo balas. Cada um tinha uma voz. Uns tinham a barba ligeiramente amarelada. Os olhos deles viviam mudando de cor, dependendo se eu estivesse no Center Norte ou no Higienópolis. Colecionando tantas evidências contrárias a minha crença natalina, decidi então sucumbir ao ceticismo. Papai Noel, você não existiria mais.

Foi um erro. Podemos negociar depois as punições aplicáveis a mim pela infidelidade. O senhor agora deve estar se perguntando como voltei a acreditar em Papai Noel assim, da noite para o dia. Simples: com a mesma sagacidade que usei para desmascarar seus sósias, conclui que não acreditar nas coisas faz com que elas realmente aconteçam.

Não que acreditar no senhor fosse algo ruim. Muito pelo contrário. Acontece que eu também não acreditava que, um dia, a gente pudesse ficar sem água. Estamos quase.  Se demorasse um pouco mais para decidir se enviaria ou não a carta, o banho já não faria mais parte da cultura paulistana. Também tinha dúvidas se o Brasil seria campeão da Copa. Se tivesse voltado a acreditar em Papai Noel já naquela época, talvez a seleção tomasse só uns 4 da Alemanha. Uns 2 se, somado a isso, o Neymar tivesse jogado.

Jamais imaginaria que alguém fosse capaz de falar que uma pessoa merecesse ser estuprada. Há quem diga isso hoje sendo pago com dinheiro público. Por essas e outras, Papai Noel, resolvi que vale muito mais a pena acreditar no senhor.

Pode ser uma solução um tanto simplista, infantil até. Mas volta e meia o que mais desejo é voltar a ver o mundo com o olhar de uma criança, que não desconfia do velhinho rechonchudo nas portas do shopping, nem creia que a pistolinha de água um dia vá deixar de existir. O senhor me aceita de volta? Os biscoitos e o leite estão na mesa da sala, próximos à árvore. Pode comer sossegado que é tudo integral, tá?

Um abraço saudoso
Ricardo

PS: preciso de um computador novo. Acha que rola? Feliz Natal!

Faça como Putin, mesmo com água na altura do pescoço, clame sempre: "estou apaixonado".



Em meio à crise russa, Putin confessa que está apaixonado
O presidente russo Vladimir Putin, que sempre foi discreto sobre sua vida privada, surpreendeu nesta quinta-feira (19) a plateia ao confessar que está apaixonado

Entrou pro grupo.

A capa do nosso jornal principal

POEMINHA SÓ PARA O ANO QUE VEM


amor
saúde
prosperidade


para o ano que vem
para o ano que vem

dinheiro
sexo
felicidade

para o ano que vem
para o ano que vem

realizações
boas vibrações
muito sucesso

para o ano que vem
para o ano que vem

todo mundo me deseja
tudo agora sem demora
só para o ano que vem

e o que é que eu faço
enquanto espero
alguém sabe me dizer?

hein?

Marcelino Freire


Enrolation

Uma chamada de primeira página no Globo de hoje informa que, nos últimos dez anos, caiu de 6,9% para 3,2% o percentual de lares em que há fome no país. Mas que, mesmo assim, ainda há 7,2 milhões de pessoa nessa situação.



Não é mentiroso o título que diz “Sete milhões passam fome no país”.
Mas seria mais correto, do ponto de vista jornalístico, um outro, que chamasse a atenção para a significativa queda, de 6,9% para 3,2%, do número de lares em que há fome.

Cid Benjamin


Com Odair José: todo dia é Dezesseis.

" é apenas um retrato na parede, mas como dói".

HOMENS NATURAIS

Eduardo Pereira

Banda Feminina Santa Cecília


Eles não eram super-homens, não eram homens-robôs, homens-rãs, homens-sanduíches. Eram homens que povoaram o imaginário, a admiração do menino e adolescente que fui e os vi pelas ruas de Cajazeiras, nos cenários sociais e históricos da cidade. Era eu um infante/jovem que constatava de que aqueles homens eram homens de bem, de caráter retilíneo, batalhadores, figuras que ficariam estampados em qualquer galeria profissional da vida com orgulho, que palmilharam de cabeças erguidas o dia-a-dia da cidade de Cajazeiras nos idos sessenta e setenta.

Refiro-me a Zé de Souza, um engraxate que lustrava os sapatos dos cidadãos de Cajazeiras, mas que tivessem ouvidos abertos para prosear sobre futebol, discutir as filigranas da pelota em sua cadeira de engraxate, que mais parecia um trono para receber seus clientes-rei. Seu escritório de trabalho ficava instalado na calçada do Mercado Coberto e a quantidade de fregueses aos domingos era tanta que mais parecia uma assembléia esportiva para nunca se chegar a conclusão de quem era o melhor jogador, Zico ou Roberto Dinamite. Ou ainda quem quisesse, todos os dias ouvir os programas esportivos noturnos da Rádio Globo lá no seu posto de trabalho, como guarda noturno da Cavalcanti e Primo, onde ela estava lá, deitado em papelões.

Refiro-me a Seu Mendonça, sempre bem vestido em seu terno de linho, calças de suspensório, óculos claros, que abastecia a cidade com botijões de gás. Era um senhor miudinho, mas sempre prestativo. Tinha aparência de alemão; O professor Assis, de inglês, de óculos pretos, de fala mansa, parecendo até mesmo com um inglês natural. Lecionava no Colégio Estadual e no Diocesano. Por sinal compadre de meu pai, e o afilhado era exatamente eu!; Seu Zé Sacristão, um múltiplo admirado por todos, pois lidava com o pessoal da justiça, como oficial, da igreja, como sacristão e com os trabalhadores, no Círculo Operário. Sempre conduzindo uma pasta debaixo do braço, seu instrumento de trabalho; Seu Arcanjo, um dos pioneiros do comércio atacado, que, com sua simplicidade atraía uma vasta clientela com muita atenção, sempre ali na sua cadeira cativa orientando seus empregados, e a caminhonete dirigida por Braguinha pra lá e pra cá deixando as compras nas residências dos fregueses. Lá em casa, uma vez por mês ela chegava; O chapeado Pedão, que diariamente passava por minha rua, eu ficava admirado por sua fortaleza de homem grandão. Com outros colegas, via-o descarregar caminhões e mais caminhões no armazém dos irmãos Robertos. Com uma saca de feijão, ou de farinha, ou de arroz, ele carregava equilibrado na cabeça, vendo eu a hora de seu pescoço entortar. Qual nada,  parecia carregar uma folha de papel, pois, repito, eram caminhões e mais caminhões quase que diariamente. E no fim dia ainda o via na bodega de Quinco, no início da Rua Dr. Coelho, bebendo pinga com os amigos. Sem falar de que seus pés nunca calçaram um par de calçados, mesmo sobre os paralelepípedos quentes da tarde; O professor Antonio de Souza, um sabedor a fundo da história de Cajazeiras, e que ainda tive a sorte de ouvi-lo em algumas aulas, suprindo a falta de professores, no Colégio Comercial. Sempre de camisa comprida, botões abotoados até o gogó, com alguma pasta ou livro debaixo do braço. Autor do clássico Crônicas de um Mestre, sobre a história de Cajazeiras; Mozart Assis, um precursor do comércio varejista de eletrodomésticos e músico da Orquestra Manaíra; O maestro Esmerindo Cabrinha, que tive a honra de ser seu vizinho. Um visionário que concretizou a formação de uma banda de música cem por cento feminina. Sempre assoviando, imagino que estava estudando notas musicais para algum dobrado; Seu Zé Amério, popularmente Zé Biquin, um construtor de cadeiras de ferro trançadas por fios de plástico que abasteceu os sítios ao redor de Cajazeiras. Projetou as salas de visitas dos matutos com duas cadeiras arredondadas, uma cadeira de balanço e um centro. Era a estética caipira na recepção das casas; Seu Zezim Lacerda, um fazendeiro que abastecia boa parte da cidade com leite. O leiteiro saía de porta em porta com a carroça puxada por um burro. Enfiava o caneco de zinco, com medida de um litro, e derramava nas vasilhas que as mulheres levavam. O leiteiro já sabia de cor o quantitativo de cada freguês. No final do mês íamos ao escritório na sua casa efetuar o pagamento; Seu Mendonça, o carteiro, magrinho como seu herdeiro que hoje o representa, passava diariamente na minha rua e quase sempre tinha uma correspondência lá pra casa. Mininim, meu irmão, era o responsável por tanta correspondência, pois trocava missivas com leitores da revista Placar. Presidente do Grêmio Artístico por muitos anos; Seu Eudes Cartaxo, compadre de meus pais, colega de trabalho de meu pai, amigo de todo mundo da cidade, e, por força do destino, algumas décadas adiante, eu e seu filho Eriston/Neném, nos tornamos amigos aqui em Brasília, sem nunca termos lembrados um do outro em Cajazeiras.

E mais uma infinidade de homens cativantes, trabalhadores, inovadores, delirantes, estão no meu imaginário de criança e adolescente como Zeilto Trajano, Padre Vicente, Padre Rolim, Queixo Fino, Borracha, Seu Dirceu Galvão, João de Manezin, Bosco Barreto, Mister Boy, Dom Zacarias, Padre Sitônio, Padre Gualberto, Padre Gervásio, o agente fiscal Antonio Guedes, o guarda Seu Espedito, Chico Rolim, Dr. Epitácio, Pedro Revoltoso, Perpétuo, Fuba, Blu, Francinaldo, Bembem, Dantinha, e mais uma infinidade que deixo a você, caro provável leitor, que dê continuidade.       

S/C