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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

o texto é longo. a vida é breve. vale a leitura.

Rodopiando em Min
Morre o fotógrafo que amarrava as pontas da vida em imagens

ELIANE BRUM*



Lembro-me primeiro de uma noite de inverno. Marcelo Min e eu testemunhávamos, como repórteres, os últimos dias da vida de Ailce de Oliveira Souza, a mulher que nós dois aprendêramos a amar, ao acompanhar o seu morrer por 115 dias. Naquela noite, Ailce parecia ter começado a partir. Ela só abria os olhos para olhar o mundo do qual se despedia e para pedir água. Nós molhávamos os lábios dela e ficávamos olhando o mundo com ela. Nem Min nem eu conseguimos deixá-la naquela noite. Nos enfiamos num quarto vago na enfermaria de cuidados paliativos do hospital, onde seu último inquilino acabara de se ir. Eram duas camas e não havia lençol. Deitamos sobre o plástico e Min, sempre generoso, me deu o único cobertor fino para atravessar uma madrugada gelada. Até ancorarmos no dia seguinte, ele ficou repetindo que não sentia frio, mas tiritava. Naquela noite do inverno de 2008, ficamos ali, no escuro, dois passageiros clandestinos daquela enfermaria entre a vida e a morte. Conversando para costurar a madrugada e a dor com palavras. Min me contou que queria morrer como seu Antônio, um homem que ele tinha fotografado em outro quarto, seu Antônio que o recebia com uns olhos brilhantes, molhados de vida, mais vivo que todos, e de imediato contava uma história. Min foi o primeiro a perceber que seu Antônio acreditava que, enquanto emendasse uma história na outra, estaria vivo. E um dia apenas fechou os olhos para anunciar que sua história tão cheia de “um tudo” havia chegado ao fim. 
Antônio Walter Correia abriu o sorriso antes de começar a contar uma das muitas histórias de sua vida. (Foto: Marcelo Min)

Três dias depois, o contador de histórias encerrou a sua suavemente (Foto: Marcelo Min)

Marcelo Min morreu na última quinta-feira (27/8). E eu ainda não posso afirmar que isso de fato aconteceu. Aqueles que amamos morrem devagar dentro da gente, e a qualquer momento eu sinto que ele vai chegar com aquele jeito meio tímido, com aquele sorriso inteiro bom, e dizer: “Oi, Eliane”. E depois faríamos alguma reportagem em que invariavelmente alguém o chamaria de “japonês”. E nós dois riríamos por causa dessa sina de que no Brasil todos os descendentes de orientais viram “japonês.” Min era descendente de coreanos. Mas ele morreu. E quando me pediram para escrever um texto sobre ele, minha reação imediata foi dizer: “não consigo”.  Como escrever sobre o Min quando a morte dele me rouba todas as palavras? Naquele momento, eu me sentia como uma criança que ainda não sabia onde as palavras moravam. Agora, algumas horas depois, volto a ser adulta. Sei onde as palavras moram, mas sei também algo que jamais vou superar: as palavras são faltantes, não dão conta da vida. Então, Min, me perdoa por me faltarem palavras para contar da falta que você nos faz.

Na manhã de terça-feira (25/8), Min deixou os filhos na escola que ele e Luciana Benatti, sua companheira, ajudaram a criar. Sim, juntos eles eram assim, o Min e a Luciana. Criavam um mundo melhor, inventavam o que precisava existir. A gente nem sabia que precisava, mas eles sabiam. E inventavam. Min se despediu de Arthur, 7 anos, e de Pedro, 4, e foi ao Parque Villa-Lobos para fazer algo bem Min. Nos últimos dois anos ele tinha decidido aprender a patinar. E quando Min decidia fazer alguma coisa, fosse um gesto ou uma aventura arriscada, ele fazia. Ficou assistindo a tutoriais na internet e acabou por se tornar um artista da patinação. Luciana olhava para ele: “Aos 46 anos, Marcelo?”. Luciana sabia que Min era livre. E o amava livre. Min então rodopiava. Ele rodopiava quando se sentiu mal. Não houve queda, nem nada assim. Era um aneurisma no cérebro, um inimigo silencioso dentro dele. Logo Min perdeu a consciência. Dois dias depois, os médicos anunciaram sua morte cerebral.

Marcelo Min foi meu companheiro em todas as reportagens sobre a morte. E foram várias. Entre 2008 e 2010 empreendemos juntos essa travessia. Acho que só ele seria capaz de olhar para a morte da maneira revelada por suas fotos. Com tanta delicadeza. Tem gente que escreve com a ponta dos dedos. Min fotografava com a ponta dos dedos. Foi assim quando registrou uma mãe com seu bebê morto nos braços. Era uma foto tão difícil. Estávamos contando a rotina de uma UTI neonatal com cuidados paliativos, narrativas de mães que pariam filhos já condenados à morte próxima. A foto era um ritual que dava memória a um momento da vida daquelas mães e pais, uma certeza de que tinham cuidado da melhor forma que puderam, haviam feito todo o possível. Tinham sido mães e pais, ainda que por um curto espaço de tempo. A foto era o registro de uma história, ainda que essa história fosse um sopro. Mas só Min poderia fazer esse retrato para publicar numa revista de circulação nacional.

Josiane Pereira despede-se de sua filha Ana Luiza. A menina viveu apenas sete horas. Na sala de luto, na unidade de neonatologia, o marido, Giovani, a ampara e acaricia (Foto: Marcelo Min)

Nessa travessia por contar o morrer, Min era mais sábio do que eu. Ele compreendia melhor a matéria da vida. No mesmo período em que peregrinávamos por camas onde a existência se encerrava, ele se dedicava com Luciana a um outro projeto, o de contar o nascimento. Ativistas, ele e Luciana, do parto natural e humanizado, Min ora era chamado para registrar estreias de bebês no palco do mundo, ora era chamado para documentar a despedida de quem deixava a cena. Vivia sob o imperativo de dois gritos, às vezes quase simultâneos: “Vai nascer!” ou “Está morrendo!”. Partia para ambos os destinos com a mesma serenidade e a mesma entrega desbragada. Nascer e morrer era muito semelhante, no ponto de vista dele, eram partes de um mesmo processo. O olhar amendoado de Min amarrava as duas pontas da vida. Nunca consegui confirmar o autor dessa frase que estou sempre repetindo, por perfeita que é, mas o legado fotográfico de Min deu uma imagem definitiva a esse aforismo: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”.

Denise, Lauro e a pequena Alice (Foto: Marcelo Min)

Arthur, o primeiro filho de Luciana e Min, fez sua estreia no mundo numa banheira de hospital e foi devidamente fotografado pelo pai. Pedro nasceu numa piscininha inflável, decorada com alegre fauna marinha e abastecida por uma mangueira e um velho chuveiro Lorenzetti, na sala do apartamento. Quando sentiu a primeira contração, Luciana achou que era a lasanha de berinjela do jantar se manifestando. Não era, e logo o porteiro do prédio foi ficando alarmado com as mulheres que chegavam de malinha no meio da noite para ajudar no parto em casa. Piorou a situação do porteiro quando Luciana começou a dar aqueles berros primais e libertadores na madrugada. Antes de começar a gritar nas contrações mais fortes, avisou ao pequeno Arthur: “Filho, para o irmãozinho sair da barriga, a mamãe vai ter que dar uns gritos de leão”. Arthur adorou. E a partir daí, sempre que sua mamãe leoa berrava, ele ria e batia palmas na maior empolgação. Foi assim, no estilo Luciana e Min de ser, que Pedro nadou para a vida. Marcelo e Arthur, pai e filho, cortaram o cordão umbilical. Quando Luciana acordou no dia seguinte, Marcelo serviu pão com requeijão. Eles eram assim. Eles serão sempre assim, juntos na memória da gente.

Na véspera do dia em que perdeu a consciência, Min levou os dois filhos para o estúdio e passou a tarde fotografando-os. À noite, uma amiguinha foi dormir na casa deles. Min botou as crianças na cama e, de novo, fotografou-as. Depois, ele e Luciana abriram uma cerveja e ficaram conversando sobre a vida. Eles sentiam-se num grande momento, “plenos” foi a palavra escolhida por Luciana. Viviam segundo suas próprias escolhas. Min disse a Luciana sobre como se sentia feliz por ter escolhido trabalhar menos para poder colocar os filhos na cama, como acabara de fazer. Min tinha escolhido uma vida viva. E sabia disso.

Nascer e morrer não foram os dois únicos temas da fotografia de Marcelo Min. Ele documentou muitos Brasis, vários mundos. Alguns deles comigo, muitos com outros repórteres. Várias vezes sozinho. Min não era um fotógrafo que esperava. Era ele mesmo um desbravador de histórias. Se o principal instrumento do repórter é a escuta, Min escutava com os olhos. Dentro daquele semblante sereno, habitava uma vontade indomável. Min era apaixonado e obcecado por suas paixões. E uma delas era a justiça. Foi assim na desocupação do Jardim Edite, em 2009, quando a especulação imobiliária expulsou 800 famílias depois que o metro quadrado daquela região de São Paulo se valorizou, entre a Avenida Berrini e a Ponte Estaiada. Alguns jornalistas acreditaram na versão oficial e deram a notícia de que todos os moradores haviam deixado o lugar. Mas Min estava lá, onde um repórter deve estar, por sua própria conta, sem que nenhum chefe tivesse mandado ou pedido. Ele acompanhava há meses o cotidiano da favela para contar o mundo invisibilizado, ainda que gigantesco, escancarado para todos que passavam pela avenida, mas preferiam não vê-lo. Min provou que havia restado uma casa, uma resistência. Registrou os últimos gauleses, Marcão da Pipoca e sua família, diante de uma casa pintada com “a cor do céu” entre os escombros do inferno de uma cidade que mastiga os mais pobres. Depois, me chamou para contar a história.

O casal José Marcos, conhecido como Marcão da Pipoca, e Maria Aparecida, sua filha Késia e o neto Miguel Isaías, diante de sua casa, numa favela que não existe mais, na Zona Sul de São Paulo (Foto: Marcelo Min)



Na noite em que ele partiu, Luciana reuniu os amigos e os familiares que haviam ido ao hospital esperar com ela a confirmação da morte cerebral. Ela já era querida naqueles corredores, a mulher que chegara lá com o homem que amava, dizendo: “Se ele tiver que ir, deixa ele ir. Nós falamos muito sobre isso, não queremos nada invasivo, nenhum tratamento doloroso e inútil. Vamos respeitar o tempo dele”. Numa roda de amor, foi lido um texto escolhido por ela. E Luciana depois contou um pouco do Min. Ela disse muito. Disse também: “O Marcelo queria mudar o mundo. E acho que ele mudou”. Sim, ele mudou. O mundo e cada um de nós que o carregaremos no lado de dentro. Sei que sou um pouco o que Min fez de mim em nossas andanças. Pedaços de Min em mim. Em nós.

Ailce, a mulher que acompanhamos no seu morrer, nos ensinou que pensar sobre a morte é pensar sobre a vida. E pensar sobre a vida é pensar sobre o tempo. Ailce havia adiado demais e um dia descobrira que seu tempo tinha acabado. Ensinou, a mim e a Min, que o tempo é a delicadeza inegociável. Acho que Min aprendeu esse ensinamento essencial, talvez o mais profundo, melhor do que eu, que agora me resto a lamentar todas as vezes em que adiei para o dia seguinte o encontro que me levaria até ele. Não há dia seguinte. Não há nem mesmo hoje. Há esse instante, agora, em que tecemos nosso tempo. E sobre isso não podemos negociar, não há o que vender ou comprar. O tempo nem mesmo se aluga. O tempo tem de ser nosso. Já. Tomado de quem nos tomou, para ser tecido em nossos próprios termos.

Min morreu. E Min sempre me soou um nome – sobrenome – tão enigmático. Lembro-me agora da poesia de Drummond. E a adapto para o Min que nela é: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em Min. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.

Min partiu. Obedecendo ao seu desejo, claramente pronunciado em tantos dias, seus órgãos foram doados para fazer outros seguirem vivos. Min partiu-se para continuar íntegro. Antes, ele escreveu com Luciana um livro chamado Parto com amor. Min agora parte com amor.

Em um vídeo sobre a reportagem da morte, Min contou que Antônio, o contador de histórias, o ensinou a morrer: “Eu quero morrer que nem o seu Antônio. Até o último momento bem-humorado, até o último momento cheio de vida”.  

Marcelo Min não queria morrer, mas morreu como quis. Rodopiando em seus patins, voando.

Min morreu vivo.

*Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista

"e o dinheiro não vê fronteiras, por que as erguemos para os trabalhadores?"

Deprimentes e muitos tristes as imagens de pessoas tentando entrar na Europa fugindo da guerra e da miséria.

Leonardo Sakamoto



(...)
O que é “migrante''? O forasteiro que vem de fora roubar nossos empregos e destruir nossa cultura? Ou aquele que deixa sua casa tentando uma vida melhor ou mesmo sobreviver?
E o que é “refugiado''? O forasteiro que vem de fora roubar nossos empregos e destruir nossa cultura? Ou aquele que deixa sua casa tentando uma vida melhor ou mesmo sobreviver?
Na maior parte dos países, a diferença reside no fato de que o primeiro encorpa as favelas e bolsões de miséria das grandes cidades, cumprindo o papel da necessária mão de obra barata e informal que ajuda a manter o preço em baixa e os lucros em alta.

E o segundo vive em acampamentos rurais e alojamentos nas grandes cidades, cumprindo o papel da necessária mão de obra barata e informal que ajuda a manter o preço em baixa e os lucros em alta.

A mobilidade deveria ser livre em todo o planeta. Afinal, se o capital não vê fronteiras, os trabalhadores também deveriam não serem barrados nelas. Ou morrer afogados ou à bala enquanto tentam ultrapassa-las. Adoraria que o Brasil desse um exemplo aos países do Norte, derrubando os muros que criam cidadãos de primeira e segunda classe, possibilitando o livre trânsito de trabalhadores sem condicionantes.

E, na verdade, qualquer pessoa que estuda migração sabe que esse fluxo de gente tem sido fundamental para a economia do centro rico. Países ricos, como os Estados Unidos, apesar de venderem o discurso de que querem barrar a imigração não-autorizada, sabem que dependem dela para ajudar a regular seu custo da mão de obra. É cômodo deixar uma massa de pessoas ao largo dos direitos, mas com muitos deveres.

Aliás, o que são favelas senão campos de refugiados econômicos? 



"Abra os olhos e o coração/Estejamos alertas/Porque o terror continua/ Só mudou de cheiro e de uniforme"

'Eu não anistiei ninguém', cantou Renato Russo
No dia em que a Lei da Anistia completa 36 anos e num tempo em que a impunidade dos agentes da ditadura ainda incentiva a reedição da barbárie, o blog lembra "La Maison Dieu", música do disco "Uma Outra Estação", da Legião Urbana.

Mario Magalhães



Alguns versos:
Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém
Eis a íntegra da composição de Renato Russo, gênio da raça, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá 
Se dez batalhões viessem à minha rua
E 20 mil soldados batessem à minha porta à sua procura
Eu não diria nada
Porque lhe dei minha palavra
Teu corpo branco já pegando pelo
Me lembra o tempo em que você era pequeno
Não pretendo me aproveitar
De qualquer forma quem volta
Sozinho pra casa sou eu
Sexo compra dinheiro e companhia
Mas nunca amor e amizade, eu acho
E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
"Eu sou a tua morte"
Vim conversar contigo
Vim te pedir abrigo
Preciso do teu calor
Eu sou
Eu sou
Eu sou a pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
O general que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente
De todos os desaparecidos
Os choque elétrico e os gritos
- Parem por favor, isso dói
Eu sou
Eu sou
Eu sou a tua morte
E vim lhe visitar como amigo
Devemos flertar com o perigo
Seguir nossos instintos primitivos
Quem sabe não serão estes
Nossos últimos momentos divertidos?
Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não, nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém
Abra os olhos e o coração
Estejamos alertas
Porque o terror continua
Só mudou de cheiro
E de uniforme
Eu sou a tua morte
E lhe quero bem
Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá
Porque eu sou
Eu sou
Eu sou

bastava taxar em 45%. já estava de bom tamanho.

  • Os vinte brasileiros mais ricos, segundo a "Forbes Brasil"
RankingBrasileirosFortuna, em R$
Jorge Paulo Lemann83,70 bi
Joseph Safra52,90 bi
Marcel Herrmann Telles42,26 bi
Carlos Alberto Sicupira36,93 bi
João Roberto Marinho23,80 bi (empatado)
José Roberto Marinho23,80 bi (empatado)
Roberto Irineu Marinho23,80 bi (empatado)
Eduardo Saverin17,53 bi
Marcelo Odebrecht & família13,10 bi
10ºAbilio dos Santos Diniz12,83 bi
11ºWalter Faria10,40 bi
12ºFrancisco Ivens de Sá Dias Branco10,36 bi
13ºAndré Santos Esteves9,07 bi
14ºAloysio de Andrade Faria8,45 bi
15ºJosé Luís Cutrale & família7,82 bi
16ºAlexandre Grendene Bartelle & família7,51 bi
17ºFernando Roberto Moreira Salles7,45 bi (empatado)
18ºJoão Moreira Salles7,45 bi (empatado)
19ºPedro Moreira Salles7,45 bi (empatado)
20ºWalter Moreira Salles Júnior7,45 bi (empatado)

"Forbes Brasil" 

carta aberta ao Sr. João Luiz. mas bem que poderia ser a tantos outros...




Prezado Senhor
Não vou tratá-lo pelo nome artístico porque não quero falar ao artista, mas ao homem. Assim, declino de tratá-lo por Lobão, como é conhecido.
Com filhos adolescentes, quando o Sr. fez sucesso, logo percebi que diferia, quer pela rebeldia mais consistente, com mais conteúdo, quer pela poesia das suas letras, ou ainda pela versatilidade criativa, que o levou do rock ao samba.
Posteriormente a minha admiração aumentou, ao vê-lo assumir publicamente que consumia drogas, não pelo fato de consumir, mas por não ser hipócrita, negando.
Por consequência da sua inteligência logo vieram a tevê e o cinema, inclusive com o Sr. se aventurando na literatura.
Rebelde com causa, bateu duro nos barões da música, donos de gravadoras e editoras, batendo muito nas multinacionais da música, que usam os artistas brasileiros, culminando por criar o seu próprio selo, para distribuir as suas canções e lançar artistas novos, acompanhado de uma revista, “Outracoisa”, se não me falha a memória.
Foi um ardente defensor das rádios comunitárias, como forma de quebrar o monopólio da mídia oficial, toda ela comprometida com interesses escusos, hoje sua casa.
Por fim votou em Lula.
Comprei todos os seus discos, muitas vezes escrevi ouvindo-o, e não só pela qualidade musical.
Como forma de gratidão, no período em que o Sr. estava no ostracismo imposto pela Globo, toquei muito as suas músicas em meus programas, sempre elogiando-o, mas...
De repente o Sr. deu uma guinada de cento e oitenta graus, passando a defender os interesses dos que sempre foram alvos das suas críticas, transformando os seus algozes, implacáveis críticos e perseguidores, em amigos, fazendo um discurso diametralmente oposto ao das suas letras e declarações, no passado, assumindo uma posição elitista e preconceituosa, disseminando o ódio inconsequente entre os alienados, colecionando contradições.
No plano intelectual o Sr. desceu até os elogios a Olavo de Carvalho, um astrólogo tão absurdamente fora de contexto que é defensor do geocentrismo e acredita em conspirações de organizações secretas, assumindo que os seus fãs são pessoas de pouco estudo, chegando a ponto de afirmar que são idiotas fanatizados os que o seguem.
Pois a sua afinidade com ele repousa no conservadorismo exacerbado, inconsequente, vendo comunismo até nas vestes vermelhas de Papai Noel.
A esta altura, tendo encontrado esta carta em sua página, o Sr. deverá estar se perguntando porque resolvi escrever-lhe, e o motivo é simples: deparei-me com uma postagem sua onde afirma que a sua falência artística é de responsabilidade do Ministro da Justiça, que o persegue, no mínimo digitado em uma das suas viagens químicas.
Não, Sr. João Luiz, a presença de trinta ou cinquenta pessoas em seus shows é que fizeram os empresários correrem, temendo óbvios e certos prejuízos com as casas vazias.
E o motivo das casas vazias é que o seu público era formado de seres pensantes, da elite dos roqueiros, dos mais inteligentes que, como eu, perceberam a sua mudança, e os oprimidos que beijam os seus opressores só merecem desprezo.
Seus shows estão cada vez mais vazios, a sua figura cada vez mais anônima nas ruas, nas manifestações pedindo golpes políticos, porque os que foram aos shows para ver o Lobão encontraram o João Luiz, com outro discurso e outra postura.
Num quadro assim não é necessário que um ministro desça da sua autoridade para perseguir um artista menor.
Perseguido foi o Lobão, outrora, antes de se ombrear aos seus perseguidores, para ajudá-los a perseguir.
Sr. João Luiz, a sua falência artística está em que o povo gostava era do Lobão, e o senhor o matou.
O Lobão está morto.
Francisco Costa – Rio, 27/08/2015

a escolha é sua.

PONTO FINAL




O sujeito que dirige este carro com uma suástica nazista na lataria, fotografado ontem por um leitor na entrada do Túnel Rebouças, no Rio, é um... Você aí escolhe do que chamá-lo:

a) Babaca; b) Criminoso; c) Ignorante; d) Burro; d) Todas as alternativas estão corretas.


Ancelmo Gois

ah, é sim!


Xico Sá hoje está de arrasar.

Como salvar o amor na crise de grana
A reforma fiscal na vida do casal é mais difícil que cortar no osso de retirante de quadro do Portinari. Tudo que tem amor no meio é mais doloroso

Xico Sá - El País



Ele vai à feira e diz que não comprou o mamão papaia da amada porque estava os olhos da cara. Ela diz que sem o milagroso fruto não resolve uma das maiores questões da enfezada humanidade: a prisão de ventre. Ele vibra: o papel higiênico anda um horror de tão caro. Tudo pela economia no lar doce lar.

É apenas um episódio do “Casal na crise”, tirinha de humor criada e publicada por Helder Santos e Camilla Loyolla nesta página do Facebook. Ele, pernambucano, é desenhista e escritor, autor do romance “Raiar”. Ela, paulistana, assistente de direção de filmes e programas de tv. Os pombinhos, ainda sem herdeiros, habitam a cidade de São Paulo, SP.

Sim, preocupado leitor, a reforma fiscal em casa são outros quinhentos. Falo em casa de classe média-média. A nova classe C, que entrou recentemente em novíssimos costumes nunca dantes, corta com mais facilidade, a memória da carência e da carestia ajuda a saber como a vida é e como a vida era antes de pegar o elevador social etc.

Se bem que é sacanagem, seu Quinca Levy, mal provaram o gostinho... Talvez seja mais difícil ainda, talvez. “Acontece com as melhores famílias do Morumbi”, pensará o Quinca mãos-de-tesoura. “I love Paraisópolis”, diria o amigo jornalista Paulo Francis, vivo fosse, com um Butantã inteiro escorrendo pelo canto da boca charmosamente torta.

Maracanã X Cinema

Cortar na vida do casal é uma comédia. Seja mamão, papel higiênico ou a cesta básica do entretenimento. Outro dia, aqui em Copacabana (ai de mim, Copacabana), ouvi no bar e restaurante “Príncipe de Mônaco”, um papo firme sobre o mesmo tema:

“Você exagera com o Flamengo, esse Maraca está comprometendo o orçamento”, diz ele, cara de bom moço, tipo intelectual fofo, rapaz da geração Los Hermanos, 30 e poucos anos.

“Você não sai do cinema e muito menos da livraria, vamos rever essa parada!”, diz ela, vestida com uma camisa vintage do Zico.

Ele nem ai para futebol, apenas uma simpatia distante pelo Botafogo. “O Bota tem um certo existencialismo... Jean-Paul Sartre, o filósofo, era Botafogo”, juro que lembro do moço dizendo mais ou mesmo isso, mais ou menos.

Cortar na vida do casal é mais difícil que cortar no osso de retirante de quadro do Portinari. Tudo que tem amor no meio é mais doloroso. Este cronista economicamente inviável que vos escreve, por exemplo, jamais cortaria o luxo da namorada, mesmo ela ganhando muito mais que eu. Sou da escola do macho-jurubeba, aquele que sempre diz, diante de qualquer dificuldade: “O que você me pede chorando, eu faço sorrindo”.

Não há meta fiscal no amor.

Minha religião é o agrado. O agrado à mulher que amo. Mesmo aquela mulher que sequer sabe-se amada. Seu Quinca Levy, meu velho, nesse critério, sempre estouro o orçamento. Haja rombo. Lembro bem meu primeiro cheque sem fundo: ainda foca, morador de pensão no Recife, fiz a graça de levar uma paquera, até prove em contrário a mulher da minha vida àquela altura do devaneio, para almoçar no “Leite”, o mais antigo restaurante do Brasil, aberto desde 1882.

Até hoje lembro do lombo de bacalhau do Porto Imperial que sujou meu nome. Chique no último essa forma de entrar no SPC, o velho Serviço de Proteção ao Crédito, naquele governo Sarney de 80% de inflação na rabiola. E olhe que a musa do Bongi –bairro da deusa- nem era de se impressionar com essas frescuras, como descobriria depois –tão vida simples, meu Deus! Coisa de matuto do interior alucinado por mulher da capital. Pense na tristeza do Jeca!

O segundo sem fundo também foi por amor, já em SP, anos 1990, mas deixa pra lá, só lembro que o jantar com champanhe me levou meio contracheque (holerite para os paulistas) e a orquídea que mandei para a casa dela me inscreveu direto na lista dos inadimplentes do Serasa. “Eu vejo flores em você!” Dias depois, foi mais lindo ainda: o governo Collor sequestrou uma grana que eu havia recebido do Fundo de Garantia da editora Abril, lá se foi meu FGTS.

Último tango

Sou do tempo em que casal só existia na crise. Eliminava até pensamento com a serra de cortar pão e dedo de mão-de-vaca. Tudo sempre foi crise na tragédia brasileira. Depois de alguma bonança econômica, no entanto, aqui estamos de volta aos ajustes fiscais caseiros.

Onde queres Paris, te darei o último forró ou rala-bucho no agreste –em vez de manteiga holandesa, como no filme com Marlon Brando, manteiga de garrafa derretidinha qual nosso amor mais gostoso. Onde queres Alpes Suíços, Garanhuns –é friozinho mesmo. E assim vamos nos acertando, quem sabe até com melhores opções no pacote para fugir do montanhoso dólar.

O importante é não deixar a crise contaminar o relacionamento amoroso. Aqui me posto como o Cupido permanente dessa causa. Donde, lembrando da tirinha genial do mamão papaia do casal Helder e Camilla, me recordo do que dizia um personagem-laxante do meu colega colunista do EL PAÍS Mario Vargas Llosa:

“Para dores de amor, nada melhor do que leite de magnésia (…). Na maior parte das vezes, os chamados males de amor, etcétera, são distúrbios digestivos, feijões duros que não digerem, peixe estragado, entupimento. Um bom purgante fulmina a loucura do amor.”

Está lá no romance “Tia Júlia e o escrevinhador”, como amo esse folhetim. Recomendo.

Na riqueza ou na pobreza, só o amor/humor é o veneno antimonotonia, o resto é desculpa dos fracos de alma que já estavam de partida –com ou sem crise!

Xico Sá, escritor e jornalista, é comentarista do programa “Papo de Segunda” (GNT) e autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros.

Wagner Moura na O2: filme de ação sobre Carlos Marighella vem aí

Longa que marca a estreia de Wagner Moura como diretor entra em fase de roteiro e captação de recursos.

wagner-crop
(em sentido horário) José Carvalho, Bel Berlinck, Eduardo Ribeiro, Felipe Braga e Wagner Moura.

Wagner Moura esteve na O2 Filmes nesta quarta-feira, 26 de agosto, e foi recebido pelas produtoras Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck.

Na pauta, o primeiro filme de Wagner como diretor de cinema. Inspirado no livro "Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo", de Mario Magalhães,  "Marighella" será um filme de ação, um thriller épico. 

O projeto está na fase de desenvolvimento do roteiro e captação de recursos.
O Governo da Bahia anunciou apoio ao filme, assim como algumas empresas baianas, como o Grupo TPC Logística. A Paris Filmes é parceira do projeto. 

Participaram do encontro Eduardo Ribeiro e José Carvalho, além do diretor e roteirista Felipe Braga.

alguns pensam com o fígado, conforme foto que introduzimos no final desta postagem. torna-se mais simples eliminar essa 'gentalha', para se evitar o calor da disputa. tem gente que detesta suar o 'jacarezinho' da camisa polo.

Lei da Anistia: impunidade de agentes da ditadura estimula chacinas de hoje

Mário Magalhães - UOL


Campanha da anistia não defendeu anistiar torturadores – 
Foto Jorge Araújo/Folhapress


A fotografia acima recebeu o Prêmio Esso em 1979. Ela documenta manifestação em São Paulo da campanha da anistia. Seu autor é Jorge Araújo, um dos mais brilhantes repórteres fotográficos brasileiros de todos os tempos, com quem tive a sorte, gracias a la vida, de tabelar por anos a fio. O Jorge é tão bom que continua no auge. O cara não tem, ao contrário de tantos craques, fase ruim.

Ninguém naquele protesto (a não ser os espiões infiltrados) advogava anistia para os agentes da ditadura que perseguiam, torturavam, matavam e sumiam com corpos de cidadãos, quase tudo à margem até da lei imposta pela ditadura parida em 1964. A anistia era para os milhares de brasileiros que haviam sido julgados, presos, cassados & caçados, estuprados, banidos, expulsos, seviciados, humilhados, violentados, punidos das mais diversas formas. A campanha democrática exigia “anistia ampla, geral e irrestrita''.

Hoje a Lei da Anistia faz 36 anos. Em 28 de agosto de 1979, o “Diário Oficial da União'' publicou-a, assinada pelo general-de-exército João Baptista Figueiredo, presidente da República sem nem um voto popular, e ministros da ditadura. Não foi nem ampla, nem geral, nem irrestrita, mas permitiu aos oposicionistas deixarem as cadeias (alguns tiveram de esperar meses), à maioria dos exilados regressar, a (poucos) trabalhadores reassumirem seus trabalhos.

A ditadura convencionou que os funcionários públicos que haviam violado os direitos humanos também estariam protegidos pela Lei da Anistia. Estariam abrigados na expressão “crimes conexos''. Papo furado: não há uma só palavra na norma que se pronuncie, para ficar num exemplo, sobre tortura. Logo, torturador não foi anistiado. Tortura, estabelece a legislação internacional, é crime imprescritível.

A ditadura considerou que havia se auto-anistiado. Essa interpretação recebeu respaldo anos atrás do Supremo Tribunal Federal, que pode mudar, se provocado, tal decisão. O que a ditadura fez e se mantém foi consagrar a impunidade de criminosos que, com salários pagos pelos contribuintes, cometeram crimes de lesa-humanidade como a tortura.

Ao contrário do que se supõe, a exigência de punição para torturadores e outros bandidos a serviço do Estado não diz respeito a arqueólogos. A impunidade imposta no passado estimula a reedição da barbárie.

Policiais militares que torturavam (torturam?) moradores da Rocinha na dita Unidade de Polícia Pacificadora contavam com a impunidade para praticar tal crime. Num dia de 2013, torturaram o pedreiro Amarildo, mataram-no e desapareceram com seu cadáver. É provável que agora haja punição. Mas os PMs faziam o que faziam supondo que, mire-se a tradição, ficariam impunes.

Idem com chacinas como a que resultou na morte de ao menos 19 pessoas neste mês em São Paulo. Se a cultura do não-vai-dar-em-nada inexistisse ou fosse menos arraigada, dificilmente policiais e comparsas se arriscariam em um massacre como esse.

Na Alemanha, no Camboja, na Sérvia, na Argentina, em muitas nações os violadores dos direitos humanos no século XX ainda são punidos, mesmo por crimes que parecem distantes.

É pegadinha da história: só parecem distantes, porque, quando se eterniza a impunidade, vitamina-se hoje o impulso bárbaro que seria mais contido em caso de punição exemplar para servidores públicos criminosos.

Quanto mais impunidade _vale para tortura, corrupção e outros crimes_, maior a chance de repetição.

No 36º aniversário da Lei da Anistia, está na hora de, mesmo atrasado, o Brasil cansar de ser o país dos impunes e julgar os agentes da ditadura.

Não deixa de ser um acerto de contas civilizatório com o passado.

Mas é muito mais um projeto de futuro de democracia, tolerância e dignidade.

Lugar de torturador, de ontem e de hoje, é na cadeia.



coisa boa de se ver


Sim, a juventude brasileira se interessa por política, se interessa pela grande política. "A palavra convence, o exemplo arrasta", diria Confúcio. 

Ana Helena Ribeiro Tavares



atendendo a pedidos, estamos postando um pouco mais tarde para não atrapalhar a audiência do Bom Dia Brasil.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

a capa é Capital


pense num cara exigente: só desço para Cajazeiras pelas águas do São Francisco ou pelas asas da Avianca.

Paraíba regulariza aeródromos na Secretaria de Aviação Civil; Cajazeiras está na lista

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A Paraíba será o primeiro Estado a ter 100% de seus aeródromos regularizados perante a Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República. Para isso, foi realizada uma audiência, na manhã desta quinta-feira (27), em Brasília, entre o secretário da Aviação Civil, Rogério Coimbra, o diretor do Departamento de Outorgas de Aeródromos, Ronei Saggioro Glanzmann e os secretários de Estado, Lindolfo Pires (Representação Institucional do Governo da Paraíba) e João Azevedo (Infraestrutura, Recursos Hídricos, Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia).
Na ocasião, os secretários paraibanos entregaram ao secretário Rogério Coimbra oito convênios para assinatura de outorgas de aeródromos, os quais permitirão que o Estado passe a operar todos os aeródromos da Paraíba, inclusive permitindo que alguns deles façam parte do Programa de Aviação Regional.
Pelos convênios entregues na Secretaria de Aviação Civil os aeródromos de Patos, Conceição, São João do Rio do Peixe, Catolé do Rocha, Itaporanga, Sousa, Cuité, Monteiro e Cajazeiras ficarão regularizados pela Aviação Civil do país.
“Essa é uma medida extremamente importante para a Paraíba, e o Governo do Estado está trabalhando firme para homologação do Aeroporto de Cajazeiras, cujas obras já foram licitadas através do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER), para retirada de uma pedra no meio da pista de pouso”, disse o secretário João Azevedo.